
Trabalho Pedagógico e Aprendizagem em EJA:
Um percurso formativo para educação nas prisões[1].
Trata-se da trajetória de transformação afetiva e social do educador de EJA na constituição de processos de subjetividade entre os sujeitos aprendizes – educandos de EJA - as vivências integradoras sentidas nas instâncias laborais – trabalho, escola, grêmios estudantis, sindicatos, associações comunitárias, entre outros - familiares e nos ciclos de aprendizagens existenciais – experiências colhidas, práticas individuais / coletivas, saberes construídos, autonomia e participação na vida social.
Fonte: Foto do Autor.
Penitenciária da Papuda.
José Nildo de Souza.
De maio de 2006 a julho de 2011.
Mudanças conjugam junto às nossas ações, tomada de decisões e modos de agir e pensar. Inquietações vividas nos estágios de formação da prática ressocializadora “A Construção do Ser Social” [2] evidenciaram modificações no percurso afetivo – existencial do educador, pois, a problemática que emergiu nas aulas de EJA com os educandos presos (as) compõe substância de vida: a arte e a cultura da comunidade, os estágios de vulnerabilidades sociais, a drogadição e a dependência química, o desemprego, a desestrutura familiar, a criminalização e o tráfico, a violência urbana, os movimentos sociais pela emancipação ética e estética de classes, gêneros e etnias excluídas das formulações de políticas públicas.
Os percursos formativos trilhados em Educação de Jovens e Adultos – educação permanente, perspectiva histórico cultural, formação ao longo da vida, pedagogia libertadora, temas geradores de interesse, intergeracionalidade, etc. – o trabalho pedagógico e as aprendizagens em ambientes não formais de ensino – penitenciárias, manicômios, asilos, centros de internamentos e reeducação - motivaram o interesse por transformações efetivas na vida do educador. Buscar conceitos e metodologias de aprendizagens vividas aponta caminhos para se redefinir os percursos constitutivos das identidades sentidas nas jornadas que nos tornam sujeitos protagonizadores de opções e escolhas.
Foto do Autor.
Centro de Internamento e Reeducação - CIR.
Penitenciária de Brasília
Maio de 2006 a julho de 2011.
José Nildo de Souza.
A partir dessas evidências transformativas edificamos modos de produção na Sociedade, Natureza, Trabalho e Cultura. São nas ramificações dessas atividades humanas que construímos processos de subjetivação. Agregam-se assim, à nossa diversidade aspectos sui generis[3] que inter-relacionam identidades e semelhanças, tornando-nos simultaneamente iguais e diferentes.
A práxis reflexiva confronta o que vivemos com aquilo que aprendemos. Eis então colocado diante de nos um permanente transformar-se: aliar a educação de jovens e adultos à cultura que se tem da vida; o trabalho pedagógico à história do indivíduo; a aprendizagem em sala de aula às suas jornadas superativas de vulnerabilidades sociais, dificuldades e desafios de conciliar vida familiar, trabalho e estudos.
Os fundamentos conceituais e metodológicos que potencializaram a trajetória de transformação afetiva e social do educador de EJA são a Arte Popular, a Educação enquanto Cultura[4] - potencializadora da participação e autonomia – sob a perspectiva histórica cultural do Humanismo e da Antropologia Filosófica. Integra nos círculos de aprendizagens do cárcere trabalho pedagógico e vivências ressocializadoras. Oportunidade singular para educador e educando preso redefinirem suas práticas humanas e existenciais explicitando um diálogo solidário dotado de riscos e conflitos em função do contexto hostil e dos problemas presente no cotidiano prisional – o corpo em seu estado recluso, a vigilância e as influências físico / emotivas da punitividade, as interferências dos procedimentos de segurança, entre outros.
Foto do Autor.
Centro de Detenção Provisória
De julho de 2008 a julho de 2011.
José Nildo de Souza.
Esse trabalho é resultado de estudos e reflexões realizados em sala de aula na disciplina Tópicos Especiais em EJA – Mestrado em Educação pela Faculdade de Educação da Universidade de Brasília - ponderando uma questão suscitada pelo professor: a partir de vivências sentidas no trabalho pedagógico e na aprendizagem em sala de aula com os sujeitos aprendizes de EJA – educando (a) preso (a) - que transformações afetivas e sociais foram deflagradas nas instâncias relacionais e humanas do educador - trabalho, escola, grêmios estudantis, sindicatos, associações comunitárias, familiares, bem como experiências colhidas, práticas individuais / coletivas, saberes construídos, autonomia e participação na vida social? E para aprofundarmos a problematização dessa questão não bastam respostas fragmentadas. Ou seja, dissociar aquilo que vivenciamos em nosso trabalho pedagógico e aprendizagem de aspectos presentes no cotidiano – família, escola, grupos comunitários, associações de bairro, partidos políticos, cursos de formação, entre outros.
Foto do Autor.
Centro de Detenção Provisória
De julho de 2008 a julho de 2011.
José Nildo de Souza.
Partindo de uma perspectiva histórica cultural transformações exponenciais reverberam – se na vida humana. Assim, nossas práticas e aprendizagens EJA por distinguirem percursos formativos ao longo da vida cinge-nos de afetos sentidos, pois, qualifica compreendermos os signos[5] onde se decantam os problemas vividos. Evidenciarmos um saber como “permanente” aguça-nos pela afeição[6] que expressa enquanto conteúdo para aprendizagem em sala de aula.
As condições transformativas que se empreendem na vida do educador desvendam que o trabalho pedagógico e a aprendizagem com sujeitos em restrição de liberdade não são peças “estranhas” ao que se ensina em aulas de EJA. Ambos, educador e educando (a) preso (a) constituem em seus trajetos formativos existenciais entes individualizantes “ex” – patriados onde se dilatam as veias da exclusão. E as mudanças que se ajuízam[7] na consciência do educador configuram-se em sua totalidade existente. Seu trabalho é sua vida. E sua vida aprendizagem sentida. Repercute-se assim, a natureza dessa transformação: viver o que se aprende e aprender a partir do que se vive. Eis então, descortinado o significado do percurso formativo do educador. Filho de família carente. O pai, operário metalúrgico e mãe, dona de casa. Ambos semi-analfabetos, porém, extremamente dedicados à formação cultural e educacional dos seus filhos[8].
Foto do Autor.
Penitenciária I do DF.
Maio de 2006/julho de 2011.
José Nildo de Souza.
As imagens de esforço e dedicação na criação dos filhos para dar-lhes dignidade e oportunidades nos estudos marcaram significativamente a infância do educador de EJA. E isso hoje repercute nos processos de transformação empreendidos no trabalho pedagógico e na aprendizagem que desenvolve em sala de aula com jovens e adultos sentenciados. A destemida impressão de força e motivação para lutar por um espaço social e profissional que apresentasse relevância colaborativa e ética na formação da cidadania de um povo constitui os elementos deflagradores de fenômenos transformativos nas vivências do educador de EJA e em suas opções metodológicas de ordem teórica e prática. As motivações conceituais e metodológicas que evidenciaram mudanças em seus trajetos formativos são:
Atividade educacional com populações de rua, Centros de Desenvolvimento Social (CDS), creches e abrigos de excepcionais no Decanato de Extensão da UnB em Ceilândia[9]. Práticas, projetos e ações pedagógicas não formais constituem experiências de aprendizagem singulares, dado o seu caráter original e criativo. E hoje, repercutem na trajetória do educador no processo de concepção de sua subjetividade a partir da protagonização de sujeitos enquanto entes coletivos. Jornada profissional de interações com meio socioeducativo de Brasília (1987/1988, Projeto Rondon – “Meninos e Meninas de Rua”).
A aliança do trabalho pedagógico em EJA com sua base teórica oportuniza vivências transformadoras não apenas nos ambientes diferenciados de aprendizagem. Mas, também, o descortinamento do fenômeno educativo e sua abrangência para a vida humana: a visão múltipla e sintética do conteúdo como substancialidade para se aflorar a propulsão que vai deflagrar um sentido para as nossas lutas e conquistas animadas agora pelo espaço social que construímos juntos – família, associações de classe, comunidades de bairro, grêmios estudantis, entre outros.
As transformações de ordem prática foram as demonstrações vividas pelo educador: as formas alternativas de aprendizagem e trabalho pedagógico nas prisões; o percurso dos jovens e adultos sentenciados da Penitenciária de Brasília constituía o mesmo trajeto que o educador trilhava da casa de sua mãe à unidade de ensino onde a criminalidade, a violência, o tráfico e a drogadição representavam lacunas, brechas ou vazios que se instalariam na jornada escolar dos educandos (as) presos (as); a busca de soluções conjuntas com os vários segmentos comunitários; a ocupação de espaços formativos em EJA a partir do trabalho pedagógico e aprendizagens vividas no cárcere junto a jovens e adultos sentenciados; a atualização dos modos de produção histórico e cultural por meio da elaboração de projeto de pesquisa e metodologias de aprendizagem em EJA para a formação de educadores[10]; estimulo à construção de metodologias coletivas de aprendizagens vividas focadas em temas e inquietações dos jovens e adultos sentenciados - família, círculos de amizade, afetividade, relações produtivas no trabalho, estudos, etc.; o resgate da cultura como elemento que compõe a história dos sujeitos aprendizes em suas formas básicas de organização comunitária e melhoria da qualidade de vida.
Universidade de Brasília
Faculdade de Educação
Departamento de Métodos e Técnicas
Programa de Pós-Graduação em Educação
Mestrado em Educação
Tópicos Especiais em Educação de Jovens e Adultos
Prof. Dr. Renato Hilário
A Construção do Ser Social:
Transformações Vividas nos Percursos Formativos dos Educadores de EJA
José Nildo de Souza
BsB, julho de 2011.
[1] Transformações sentidas e deflagradas nas dimensões da individualidade / subjetividade, nos círculos sociais - família, trabalho, estudos e convivência afetiva. Trabalho de Conclusão da Disciplina Tópicos Especiais de Educação de Jovens e Adultos, Profº Doutor Renato Hilário. Faculdade de Educação / Mestrado em Educação. José Nildo de Souza. Brasília, Julho de 2011.
[2] Realiza-se na Penitenciária de Brasília, a partir de fevereiro de 2006, concebida inicialmente em turmas de EJA - regência de classe, 1º 2º e 3º segmentos – desenvolveu-se como “laboratório e oficina estético – expressiva” onde cada um passou a ser motivado a “dizer a sua palavra”.
[3] Locução latina que significa “do seu gênerogênero próprio”. loc.
Que não se acha noutro. Original, particular e singular. Dicionário Priberam. Brasília, 2011.
[4] Carlos Rodrigues Brandão. Cultura (Movimentos de cultura popular). Dicionário Paulo Freire, 2008, p. 100
[5] A linguagem é abordada aqui enquanto elemento de identidade representacional e aspecto simbólico da vida humana em seus processos interrelacionais de construção de sentidos. Constitui então fenômeno constelador de significados. Ou seja, agrega à perspectiva histórica cultural a condição do indivíduo enquanto ser “existente”, ambientado pelo contexto que lhe insere e o faz construir um “ser social”. Mestrado em Educação. José Nildo de Souza. UnB/FE. Brasília, abril de 2011.
[6] Afabilidade, amabilidade, benevolência, ternura, afeto e amizade.
[7] Avalia, pensa, pondera e reflete.
[8] O educador cita a forma como a mãe lavava os uniformes escolares dos filhos e o pai chegando cansado do trabalho e com dificuldade estudando à noite na esperança de concluir o primário ou o ginasial.
[9] Local onde o Profº Dr. Renato Hilário Reis ministrava cursos, oficinas, palestras e seminários nas áreas de Educação e Movimentos Sociais de Base, Cultura Popular e Políticas Públicas. UnB, Ceilândia, 1986.
[10] Coordenadoria de Pesquisa em Educação Básica (COPEB). Curso de Formação para Professores do Sistema Penitenciário do DF Muito Além das Grades – Módulo IV, Aprendizagens Vividas no Cárcere pela Escola de Aperfeiçoamento de Profissionais da Educação (EAPE). SEEDF, desde março de 2011.





